
Era março, ainda chovia, estava sozinho, como sempre, senti o desejo de fumar algo em meio a tempestade, era noite e ainda não havia chegado meia-noite, tudo fica escuro, parecia ter sido o poder da minha mente, mas como nunca acreditei nisto...
Senti a presença de alguém, uma mulher, imaginei ser minha namorada, ela tem uma chave da minha casa, eu estava sentado na escada, admirando a chuva pelas janelas, senti frio, estava mesmo querendo possuir minha namorada naquele chão frio, então ela não aparece, acreditei que ela ia logo subir, então me encontrar.
Andei sozinho na escuridão à procura de algum vulto, vi passar no corredor rápido, e subir a escada após, subi. No meu quarto, ao entrar, vi, uma monstro que não lembro muito bem, parecia me esperar, voltei sem deixar ser percebido, peguei meu revólver, atirei sem hesitar, o cheiro de sangue inundava o quarto, ouvi então murmúrios, puxei ainda receoso o lençol, minha namorada, nua, agora morta, aquela pela branca suja de sangue, o cheiro do sangue, tudo não me deixava pensar, só conseguia ver aquilo, senti aquilo, aquela angústia que clamava pelo fim, dela e o meu.
Me deitei na cama, ela já havia morrido ou ficado inconsciente, a abracei, então ouvi sua voz novamente, não acreditei ela estava viva, procurei pelo ferimento que havia visto, era próximo a clavícula, na esquerda, a pele estava integra, e ela viva, não aguentava pensar novamente, agora só queria sentir o meu amor nos meus braços, ela estava incrivelmente cheirosa, linda como sempre, transamos até exaustos dormimos, juntos como adoramos ficar.
Acordei tarde no outro dia, então decidi acorda-la com beijos, parecia ser tarde, e ela tinha que ir para a faculdade, quando a olhei vi uma mosca sobre sua pele, senti o seu gélido sangue em toda a cama, por todo o meu corpo, a puxei, vi os olhos dela, estava morta, já havia até esquecido os apuros que havia passado, agora lembrava, sim, havia a matado.
A empurrei da cama antes de levantar, ela não me atrai mais, pelo contrário, agora repudiava, aquele corpo sujo, de sangue e de esperma, olhei a minha arma, ainda no criado-mudo, na queria me matar, temia não ser verdade aquilo, não seria apenas uma ilusão ou um pesadelo? Fui ao chão, queria senti novamente a morte dela, a vi, a toquei e agora tinha certeza, não era um mero sonho, lembrava de tudo com detalhes, dos meus pensamentos aos grunhidos dela, penetrei ela ainda viva, agonizante, tive ódio de mim mesmo, eu a amava, nunca havia amado ninguém daquela forma, e agora o que tinha feito? Decidi resolver tudo, coloquei o revólver na boca, atirei.
Então após alguns sonhos estranhos, vozes e a sensação de pessoas ao meu redor, abro os olhos, me vejo num leito, estava cheio de aparelhos, minha boca era um grande oco, e respirava por uma traqueostomia, não acreditava, estava vivo. Um enfermeiro entra, finjo estar dormindo, ele mexe nos tubos, e sai logo, sem ter percebido nada.
Então abro os olhos, tento me mover, não consigo, então descobri, estava tretaplégico, não queria viver, estava preso a tubos, queria tira-los e pular daquele quarto, então entra minha mãe, e chora, tento falar, não consigo, não aguento, e lágrimas molham meu rosto, depois de um tempo ela diz que havia pensado desligar os aparelhos, acreditam que eu não voltaria, mas ela decidiu esperar, que tinha certeza que Deus ia fazer o filho dela acordar, e depois de nove meses dormindo naquele hospital o filho dela estava finalmente de volta. Ela me diz depois que nunca iria andar de novo, falar, comer normalmente e respirar pelo nariz, resíduos da bala deixados negligentemente pelos médicos durante uma cirurgia fizeram ser necessária a retirada da minha laringe, completamente.
Chorei mais, ela ainda me mostra o cartão entregue no enterro, agora não falando mais, como por não receber respostas, chorava e mostrava o que havia guardado para quando eu acordasse, na foto eu estava com ela, minha foto favorita, dela também, e no epitáfio, dizia: "viveu feliz, como uma criança que sempre foi", no cartão estava a cor favorita dela, fechei os olhos, então escutei minha mãe dizer: Sabia que a droga ia acabar com você, mas agora você será o meu bebezinho, irei leva-lo para casa, contratar uma enfermeira bonita para cuidar do meu menino.
Fechei os olhos, imaginei estar no inferno, e que deveria sofrer, não sabia mais o que odiar, não tinha controle de nada, era agora como um móvel velho e inútil na sala da minha mãe, ela dizia a todos: Deus trouxe meu filhinho de volta, sabia que um dia ele ia me dar este presente.
quinta-feira, 8 de abril de 2010
0Na escuridão
Postado por Anjo Cadaver às 10:07
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